... em um céu azul ...
30 de março de 2010
Hei de ser quem vai chegar
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir...
Fernando Pessoa
22 de março de 2010
17 de março de 2010
posso durante um minuto ou mais
Benditas coisas que eu não sei
Os lugares onde não fui
Os gostos que não provei
Meus verdes ainda não maduros
Os espaços que ainda procuro
Os amores que eu nunca encontrei
Benditas coisas que não sejam benditas
A vida é curta
Mas enquanto dura
Posso durante um minuto ou mais
Te beijar pra sempre o amor não mente, não
mente jamais
E desconhece do relógio o velho futuro
O tempo escorre num piscar de olhos
E dura muito além dos nossos sonhos mais puros
Bom é não saber o quanto a vida dura
Ou se estarei aqui na primavera futura
Posso brincar de eternidade agora
Sem culpa nenhuma
Mart’nália - Zélia Duncan - Benditas
15 de março de 2010
para que ela tenha o sentido que se deseja...
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. É preciso encontrar as coisas certas da vida, para que ela tenha o sentido que se deseja..."
Vinícius de Morais
12 de março de 2010
o desenho da nossa vida não nos pertence
"...O universo tem uma lei, uma harmonia, que às vezes desconhecemos. Choramos quando algo muda e foge de nossas mãos. Não deixamos as mudanças ocorrerem, seguramos a vida. Quando finalmente aceitamos que o desenho da nossa vida não nos pertence e que existe no universo uma trama de fios mais grandiosa e complexa, tudo muda... Ficamos mais atentos aos sinais que nos mostram os caminhos da ação correta, a ação que aceita e se entrelaça amorosamente com os desígnios divinos. Enfim, nos submetemos _ não somos mais um ego que tenta controlar tudo a qualquer custo..."
... mas ainda sim é muito dificil !!! ...
6 de março de 2010
As raízes e as asas chegam juntas...
De algum tempo pra cá tenho repetido muitas vezes que estou precisando de asas ... quer dizer que estou precisando voar mais longe... ser mais leve... aprender novos caminhos... Tenho me sentido enraizada... amarrada... E assim como sabemos “Tudo aquilo que você pede o Universo conspira e te apresenta”
Ele vem maravilhosamente me apresentando, de diversas maneiras. Meu desafio agora é administrar e aprender um dia depois do outro como lidar com aquilo que eu mesma desejei ... e para isso a gente também se prepara. Estudando um pouco sobre meditação encontrei um texto que diz exatamente o que preciso aprender para administrar minhas “asas” e minhas “raízes”...
“Meditar é a maneira de nos fixar em nós mesmos, no mais profundo centro de nosso ser. Uma vez que você encontrou o centro de sua existência, você terá encontrado tanto suas raízes quanto suas asas.
As raízes estão na existência, tornando você um ser humano mais integrado, um indivíduo. E as asas estão na fragrância que é liberada por estar em contato com a existência. A fragrância consiste de liberdade, amor, compaixão, autenticidade, sinceridade, um senso de humor, e um tremendo sentimento de alegria.
As raízes tornam você um indivíduo e as asas dão a você a liberdade do amor, para ser criativo, para compartilhar incondicionalmente a alegria que você encontrou. As raízes e as asas chegam juntas. Elas são dois lados de uma experiência e esta experiência é achar o centro de seu ser.
Estamos continuamente nos movendo na circunferência, sempre em algum lugar bem distante de nosso próprio ser, sempre direcionado para os outros. Quando tudo isso é abandonado, quando todos os objetos são abandonados, quando você fecha seus olhos para tudo que não é você; até mesmo sua mente, as batidas de seu coração são deixadas para trás; apenas um silêncio permanece.
Nesse silêncio você lentamente se assentará no centro de seu ser e então as raízes crescerão por si mesmas e as asas também. Você não precisa se preocupar com elas. Você não pode fazer nada com elas. Elas chegam por si mesmas. Você apenas preenche uma condição: que é, estar em casa; e toda a existência se torna uma alegria para você, uma bênção.”
Eis uma das milhares de respostas que ainda preciso encontrar, mas essa já posso colocar em pratica ..."meditar" ...
1 de março de 2010
o que aconteceu a minutos atrás
Poema
Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás
Cazuza / Frejat
21 de fevereiro de 2010
isso é um trabalho para ...

essa do calvin é pra quem me conhece ...
fica calmo eu tenho um plano !!!
20 de fevereiro de 2010
porque você possui apenas uma vida
"Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.”
Clarice Lispector
9 de fevereiro de 2010
pensar é transgredir
Tenho verdadeira admiração por essa mulher que assim como outras e como eu também tenta entender a vida e descreve essa busca como ninguém ...
"Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"
O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.
Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer."
Lya Luft
8 de fevereiro de 2010
pensamentos
...os pensamentos são como pássaros: eles chegam e fazem ninho nas árvores da consciência por algum tempo, e depois alçam vôo de novo.
São esquecidos e desaparecem...
26 de janeiro de 2010
25 de janeiro de 2010
momento presente
Nossa tranqüilidade normalmente é determinada pela nossa capacidade (ou habilidade?) de viver o momento presente, independente do que aconteceu ontem ou do que poderá acontecer amanhã . Mas nem sempre se desligar é fácil, deixar de se preocupar com problemas passados e ter sempre a preocupação com a realidade futura faz parte do nosso dia a dia. Perdemos parte de nossa vida preocupados com uma variedade de coisas que vão consumindo nossos momentos e assim vamos em frente frustrados e sempre convencidos que "algum dia" será melhor que hoje .
“a vida acontece quando estamos ocupados fazendo outros planos” ... (John Lennon)
Enquanto isso posso dizer que as crianças se ocupam em crescer, pessoas que amamos estão se mudando, morrendo ou simplesmente indo embora, nossos corpos vão ficando cada vez mais fora de forma ou doentes, nossos sonhos ficando cada vez mais distantes, nossa felicidade cada vez mais adiada para o "tal dia". E não percebermos que este ensaio técnico onde acreditamos que a peça ainda não começou "é"a nossa vida ... o momento que podemos controlar e onde fazemos nossas escolhas ... Ser feliz agora, sem medo?!! Ou continuar nessa neurótica busca pelo dia perfeito onde não precisaremos mais nos preocupar com o que vai acontecer no futuro – se teremos ou näo dinheiro suficiente, se teremos filhos, se ficaremos velhos , se teremos saúde. Toda essa divagação é porque estou de férias e tendo tempo para avaliar como combater meu medo de viver "agora"... e a única conclusão que cheguei é que tenho que colocar toda minha energia no presente ... essa é a vida que escolhi e não vou ter direito a troca e muito menos reclamações.
22 de janeiro de 2010
20 de janeiro de 2010
guerreiros do arco-íris
Desde de criança as sete cores do arco-íris me encanta ... lindo, grandioso sempre fiquei intrigada e ainda fico pois não sabemos ao certo onde ele começa e onde termina ... cientificamente tenho certeza da explicação, mas prefiro pensar mais nos significados! Quem me conhece já sabe do meu fascínio pelas cores do céu, nos entardeceres, nos amanheceres, nos dias de muito sol, nos dias de muitas e poucas nuvens, enfim ... fascínio pelas mudanças diárias de cenários que ele nos proporciona e nisso o arco-íris se inclui como um evento mais celebre. Descobri que esse instante mágico cala fundo no coração dos homens o arco-íris está presente em quase todas as religiões e mitologias da humanidade. Ele representa as virtudes contidas em todas as cores : a força da vida ligada ao vermelho, a alegria trazida pelo laranja ou a sabedoria do amarelo. Fecham o ciclo o equilíbrio proporcionado pelo verde, a paz do azul e a vibração espiritual do violeta. Os gregos chamavam de Íris a bela deusa que habitava o arco celeste. O nome arco-íris é uma homenagem a ela. Íris tinha um vaso de água nas mãos, para formar o seu chão de vapor colorido, e carregava o caduceu, um bastão com duas cobras enroladas, símbolo da cura, até hoje usado para representar a medicina. Assim ela transmitia aos homens a noção de que a cor pode curar.
Mas é na tradição dos índios americanos que as sete cores celestes anunciam um novo tempo de felicidade. Diz uma profecia da tribo Cree que, numa época em que os rios do planeta estivessem envenenados, e o mar, negro de sujeira, surgiriam os guerreiros do arco-íris, que lutariam pela dignidade da Mãe Terra. Um grupo de jovens canadenses e americanos retomou a velha lenda indígena e fundou o Greenpeace, organização internacional que luta pela preservação do meio ambiente. E batizaram de Raimbow Warrior (Guerreiro do Arco-Íris) o barco que protagonizou várias ações da entidade. "Todas as pessoas que lutam por melhores condições de vida e saúde, pela cidadania e pela natureza são guerreiros do arco-íris". Não é por acaso, portanto, que o arco celeste seja um dos símbolos da Era de Aquário. As sete cores irmanadas anunciam um novo tempo, em que a fraternidade, uma das grandes qualidades deste signo, finalmente irá prevalecer sobre o individualismo. Não tenho como negar a força dessas sete cores ...
18 de janeiro de 2010
talvez um dia me acenes
Dissolver-me na luz. Encostar-me a esse muro invisível e fechar os olhos. Deixar-me ir rente ao suave calor das pálpebras, de amor em amor, de verão em verão, como quem regressa ...
talvez um dia me decifre
talvez um dia me acenes
talvez...
13 de janeiro de 2010
her dancing
...you must’ve seen her dancing in the sand…
dias atrás ... perdi o sono e no meio da minha noite de insônia depois de algumas porcarias na TV. assisti "Quase famosos" do diretor Cameron Crowe. Gostei do filme com aquele ar anos 70, mas o que me pegou mesmo foi essa musica que não saiu mais da minha cabeça ...
Sir Elton John - Tiny Dancer - Almost Famous
Sir Elton John - Tiny Dancer - Almost Famous
7 de janeiro de 2010
fui a feira
pensando e repensando as minhas motivações para a felicidade e sem muitos outros programas por aqui ... eu tenho ido a feira ... lugar cheio de cores, aromas, sons e movimentação... Talvez por isto seja tão divertida, não é a toa que minha mãe não perde uma !!!
Pura diversão ... ou diversão pura ?????
5 de janeiro de 2010
3 de janeiro de 2010
o.lhar
"O ato de ver e olhar não se limita a olhar para fora, não se limita a olhar o visível, mas também o invisível. De certa forma é o que chamamos de imaginação”
(Oliver Sacks)
Se buscarmos no dicionário sinônimos para o verbo olhar vamos achar ... Fixar os olhos em; mirar-se; ver-se; estudar; examinar; observar; pesquisar; sondar; atender a; considerar; ponderar; ação de olhar; movimento dos olhos; próprio para ver; aspecto dos olhos; modo de olhar... Neste universo de mirar-se, observar, ponderar ... o sentido da palavra o.lhar se torna muito mais ampla. Esse olhar é construído pela experiência de vida de quem observa e ele vai se construindo ao logo do tempo, pessoas com quem conviveu, lugares onde passou, os cheiros que sentiu, filmes que assistiu, musicas, livros isso constrói um olhar, esse é modo com o qual uma pessoa pode ver o mundo. Precisamos ter repertório para não cair na grande armadilha da massificação sendo condicionado a ver tudo sempre da mesma maneira. Alimentar a alma é única maneira de melhor utilizar o conjunto olho-cérebro-alma o qual nos faz únicos e traduz ao mundo o que realmente somos.
27 de dezembro de 2009
"artista guerrilheiro" Banksy
Sei que às vezes essa coisa de só poesia também é muito chato ... mas não resisto a facilidade com que elas traduzem momentos ... coisa que eu definitivamente não tenho talento para fazer. Nova fase se inicia embora me nego a deixar de posta-las ... Vem comigo ......
http://www.banksy.co.uk/
Dá-me a tua mão
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
12 de dezembro de 2009
Tempo
(foto Andre Kertesz)
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana
7 de dezembro de 2009
De ver que viver não tem cura
(where is love?)
Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
Paulo Leminski
23 de novembro de 2009
As vezes fechamos os olhos e nos entregamos a sorte ..........
As vezes fechamos os olhos e nos entregamos a sorte ..........
Pensando em escolhas ... fazemos de tudo para escolhermos um caminho de forma mais ou menos consciente, mais ou menos influenciada por algo que não nós ... e de repente notamos que estamos num outro caminho e que não é possível regressar à encruzilhada onde optámos porque o tempo a dissolveu...
Lugares perigosos, as encruzilhadas.
Nas encruzilhadas não se pode ficar parado e lá é onde os deuses repousam. Por isso às vezes fechamos os olhos e entregamos os pés à sorte...
O tempo separa as pessoas muito mais do que o espaço porque o espaço é solúvel e o tempo não.
E agora, o que fazer com as horas?
As antigas certezas não são assim tão certas e já não servem para nada. O aqui e agora está sempre a mudar e o prazer não se consome.
Até quando desaparecem, as pessoas desaparecem para algum lado. Mesmo as que não têm para onde ir...
E há aquelas que fogem e deixam partes de si para trás, partes que se atrasam de propósito e demoram a chegar. E de repente dão por si no hall de entrada de um mundo que nem chegam a reconhecer.
E há aquelas que fogem e deixam partes de si para trás, partes que se atrasam de propósito e demoram a chegar. E de repente dão por si no hall de entrada de um mundo que nem chegam a reconhecer.
Devia ser possível guardar o prazer em cofres dos quais só nós conhecemos a combinação, em gavetas secretas que mais ninguém sabe onde ficam...
Em caixas bem seladas que só nós sabemos abrir, e que prometemos só abrir quando desejarmos mesmo voltar a sentir o prazer...
E nunca deixar que ele ande solto por aí, ainda que ele não se consuma !!
20 de outubro de 2009
12 de outubro de 2009
O essencial é invisível para os olhos
Antoine de Saint-Exupéry, 1943
“O essencial é invisível para os olhos”
Porque hoje é dia das crianças ... e somente a simplicidade e a naturalidade delas podem nos mostrar como precisamos de uma profunda mudança de valores...Com o tempo nos perdemos de nossos valores mais importantes, nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e descobrimos como esses julgamentos nos levam à solidão. Nós nos entregamos as nossas preocupações diárias, nos tornamos adultos de forma definitiva e esquecemos a criança que fomos um dia ...
Por isso coloquei uma passagem do livro ... a que eu mais gosto claro ...
“E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer “cativar”?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços…”
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…
- É possível, disse a raposa. -
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor… cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele…
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
-O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…
- Eu sou responsável pela minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar”.
4 de outubro de 2009
O Primeiro Dia
A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asarinda-se aos amores com o vinho da casa
nasce um novo dia e no braço outra asarinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
(Sergio Godinho)
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